Dois irmãos. Sessenta anos. Uma loja.
A HomeCenter começou num galpão alugado em Moema, em 1962, com R$ 5.000 emprestados do tio Vahan, vendendo cimento e pregos. Hoje atendemos o Brasil inteiro pelo e-commerce e mantemos quatro lojas físicas — todas em São Paulo, todas administradas pela terceira geração da família Manukian.
De Yerevan a São Paulo, com escala em Marselha
Aram e Ararat Manukian nasceram em 1934, em Yerevan, capital da Armênia — naquela época, parte da União Soviética. A família era de pequenos comerciantes e os gêmeos cresceram entre tecidos, ferragens e contas feitas no caderno, na pequena loja do pai, Hovhannes.
Em 1948, com a pressão soviética crescendo sobre a comunidade armênia e a impossibilidade de manter o pequeno negócio independente, Hovhannes tomou a decisão que mudaria tudo: vendeu o que pôde, despediu-se da família que ficaria e embarcou com a esposa, os dois filhos e uma mala em direção a Marselha. Os gêmeos tinham 14 anos.
Em Marselha, a família esperou seis meses até conseguir os documentos para o Brasil — destino escolhido porque um primo distante, Vahan, havia se estabelecido em São Paulo na década anterior e mandava cartas otimistas. Em janeiro de 1950, o navio Conte Biancamano atracou em Santos. A família seguiu de trem para a capital paulista.
Bom Retiro foi a primeira casa: bairro paulistano que naqueles anos abrigava italianos, judeus, gregos e armênios. Hovhannes voltou ao que sabia fazer — abriu uma pequena tinturaria. Aram e Ararat estudaram à noite, trabalharam de dia, aprenderam português e foram entendendo que o futuro deles não estaria em tecido. Os gêmeos olhavam para a cidade que crescia ao redor — São Paulo dos anos 50, plena explosão industrial — e enxergavam construção, reforma, obra. Material de construção.
1962 — O empréstimo do tio Vahan
Aram tinha cabeça para números. Ararat conhecia os clientes pelo nome antes mesmo de conhecer o nome deles. Os dois trabalhavam há quase uma década em lojas de ferragens espalhadas pelo centro de São Paulo, juntando o que dava do salário. Em 1962, na soma das poupanças, faltava metade do que precisavam para alugar um galpão e estocar mercadoria.
Tio Vahan emprestou os outros cinco mil cruzeiros sem cobrar juros nem prazo. "Vocês me pagam quando puderem. E se não puderem, ainda assim foi um bom negócio." O galpão ficava na Vila Uberabinha — depois absorvida pelo bairro de Moema. Era apertado, sem refrigeração, com o chão de cimento queimado. O letreiro foi pintado à mão por um amigo da família: "Brasiliana Materiais de Construção".
O primeiro cliente da Brasiliana foi seu Antônio, dono da padaria da rua Pavão: dois sacos de cimento e meia dúzia de pregos. Ele pagou em dinheiro, sem desconto, e levou tudo a pé. Aram registrou a venda em um caderno de capa preta que existe até hoje, guardado num cofre antigo na loja matriz.
A loja é nossa, mas os clientes são uma família só. Se um irmão atende, é como se o outro estivesse atendendo junto.
— Aram Manukian, em entrevista ao Estadão, em 1985
60 anos em cinco marcos
A família Manukian deixa Yerevan, passa por Marselha e desembarca no porto de Santos em 1950.
Aram e Ararat abrem a Brasiliana Materiais de Construção num galpão alugado em Moema, com R$ 5 mil emprestados do tio Vahan.
Os filhos dos gêmeos — Hovhannes Jr. e Manuel — assumem a operação. Inauguração da segunda loja, na Lapa.
Sob a liderança dos netos, a Brasiliana abre a terceira loja em Pinheiros. Decide-se que o nome comercial passará a ser HomeCenter, mais memorável.
A HomeCenter passa a entregar para o Brasil inteiro. Quatro lojas físicas em SP, programa PRO de parcerias, mais de 800 produtos online.
De um caderno preto a um e-commerce
Sessenta anos depois, no mesmo CEP
A loja matriz da HomeCenter ainda fica em Moema, a quatro quarteirões do galpão original. O caderno preto de 1962 está guardado num cofre na recepção — quem quiser pode pedir para ver. O letreiro pintado à mão foi restaurado e está pendurado na entrada como decoração.
Hoje vendemos materiais de construção, revestimentos e acabamentos para o Brasil inteiro pelo e-commerce, mantemos quatro lojas físicas em São Paulo e atendemos pessoalmente arquitetos, engenheiros, designers e os clientes finais que vêm com plantas debaixo do braço pedindo conselho.
Continuamos sendo uma empresa familiar. A terceira geração dos Manukian administra — Lucas, Sofia, Vahan Jr. e Tatev. Mas a filosofia que Aram cunhou em 1985, durante aquela entrevista no Estadão, segue intacta: "A loja é nossa, mas os clientes são uma família só."
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